A CASA DO MAGO
Mellowyng era um mago diferente, gostava de tomar chá, apreciar um bom fumo. Era uma pessoa organizada, gostava de tudo no seu devido lugar. Não era simplesmente tão fácil organizar tudo naquela humilde casa, porem o mago não a achava grande demais, apenas confortável.
A casa mostrava-se um tanto imponente aos olhos de quem passava, mas isso pouco acontecia, já que a vila era longe da cidade. Mellowyng morava em um vilarejo distante á poucos quilômetros da mesma. Só havia um caminho a ser percorrido por quem quisesse entrar na vila, mas isso assim me crê, não seria um grande problema, já que a estrada só era usada por quem ali morava.
As pessoas da cidade tinham certo receio de entrarem na vila, ainda mais por saberem que só havia um caminho a ser percorrido. A estrada era coberta por arvores que de tão grandes davam a impressão de que mesmo percorrendo a luz do sol, o cominho se mostrava obscuro e sem fim. Mas tudo isso tinha um motivo.
Há muito, muito tempo atrás, não se sabe exatamente quando, talvez antes mesmo da existência daquele lugar, houve uma grande explosão. Coisas terríveis aconteceram durante aquela noite, chuvas muito fortes caíram, labaredas de fogo caiam do céu, trovões, relâmpagos, ventos a uma velocidade incomum, coisas nunca vistas antes.
Isso fez com que mais tarde, coisas raras acontecessem naquele lugar, como a altura das arvores do vilarejo, pois as mesmas cresciam mais altas e mais fortes que as arvores da cidade. Todo o lugar mostrava-se diferente e ao mesmo tempo, mais vivo do que se possa um dia pensar. Mas como em todo o mundo, as pessoas da cidade as olhavam diferentes.
As crianças eram aconselhadas a não entrarem na vila. Na escola, as crianças da cidade eram proibidas pelos pais de fazerem amizade com as crianças do vilarejo. Isso se propagou ainda mais quando as pessoas da cidade começaram a criar rumores sobre aquele lugar ainda tão incompreendido. É claro que isso não era totalmente verdade, pois as pessoas que moravam no vilarejo, ou para ser mais claro, na VILLA CAPÍLI, eram tão possivelmente normais quanto às pessoas da cidade.
Tudo acontecia normalmente na vida de todos, mas não apenas para uma... Mellowyng! Embora o mago tenha uma vida aparentemente normal naquele lugar tão incompreendido, assim visto a seu próprio julgamento, era notado diferente mesmo por quem morava na vila. As pessoas que o cercavam perguntavam-se uns para os outros como um senhor de idade já avançada, pudesse ter tanta disposição e certeza como tinha o velho. Também não entendiam porque o mesmo usava aquelas vestes longas, chapéus pontudos, a barba longa e também o cajado, já que não precisava dele.
Todos ali também se perguntavam uns aos outros, quando foi que o velho havia se mudado para o local, pois a impressão que tinham era que ele sempre estivera ali, ou então talvez fosse mais antigo que o próprio lugar.
A casa do mago já não era igual as demais, pois se mostrava imponente aos olhos de quem a olhava. A mesma tinha uma aparência incomum, como se talvez não houvesse sido construída por mãos humanas ou coisa parecida, mas tinha uma aparência velha por fora, como se ao mesmo tempo quisesse dizer algo.
Nas noites, a casa já não se mostrava tão tranqüila, tinha uma aparência obscura ou sem vida, o portão era de altura simples, de ferro, este era aberto e nele havia grades com pontas semelhantes à de lanças e isso percorria por todo o quintal, que era grande, com arvores a uma distancia de três metros do portão, e a cinco metros da casa.
A casa era grande, nela havia muitas janelas com telhados semelhantes à de estruturas de castelos, com detalhes únicos, e com uma parede maior ao meio, fazendo com que a mesma parecesse uma torre. A casa era a mais antiga do vilarejo, porém o que mais chamava a atenção de quem por um acaso ousasse passar por ali, era uma estatua um pouco a frente de uma das arvores do quintal.
A estátua tinha a semelhança de um castiçal. Um simples objeto que tem a função de iluminar, mas este era diferente, pois tinha doze braços e na ponta de cada braço havia uma pedra com a semelhança de uma bola de cristal. Porém como já citei no começo deste livro, não era simplesmente tão fácil organizar tudo naquela humilde casa, mas o velho não estava sozinho, ele tinha um sobrinho.
Güibbi... Um pequeno rapaz de apenas treze anos que perdeu a mãe morta por um dragão quando ainda tinha poucos dias de vida. O sobrinho era um bom rapaz gostava de ajudar o tio, fazia de tudo para não o deixar zangado. O tio, este já era modesto, sempre dizia:
─ Güibbi faça tudo, mas não precisa limpar o porão.
Não é muito comum alguém dizer para não limpar o porão, mas como tudo que envolva Mellowyng, seu sobrinho, e sua casa tem algo em especial, temos que levar em consideração o motivo disso tudo. Todas as manhas, o mago se levantava para preparar aquele bom chá, uma erva doce do fumo caseiro e ia diretamente ao porão.
O sobrinho sempre notava a rotina que o tio fazia todas as manhas, pois ao acordar preparava aquele chá, um pouco do bom fumo, pegava a sua coruja e ficavam horas no porão, ou talvez parte do dia. Ao notar que o tio fazia isso todas as manhãs, Güibbi começava a se perguntar o que havia de tão especial naquele lugar, ou então para que levar uma coruja para se passar horas num porão.
O tio sempre dizia ao sobrinho, que ali naquele velho porão existiam coisas tão velhas quanto ele, e por isso não adiantaria de nada perder tempo com tais coisas. Mellowyng temia que a verdade viesse à tona e o garoto fizesse tal coisa, por isso nunca confiou a chave ao sobrinho, porém Güibbi sempre tocava no assunto, mas o tio sempre fugia do mesmo.
Contudo, o sobrinho ouvia, mas sabia tanto quanto o tio que um dia aquelas palavras ditas, não seriam capazes de segurar um espírito aventureiro.
Güibbi ouviu isso por boa parte de sua infância, mas nunca se esqueceu do que mais o deixava curioso... O Porão. Porém tudo seguia normal em sua vida, ajudava o tio, limpava a casa, mas não ainda o porão, Güibbi já tinha seis anos, mas ainda não conhecia ninguém, nem mesmo um amigo, até que porventura, um dia o tio lhe chamou para dar uma noticia importante.
O jovem estava na sala limpando a prateleira, quando de repente quebra um vaso e o tio surpreso depois de ver do que se tratava, disse para Güibbi bater a sua porta. Era à hora de ir para a escola. No começo, Güibbi não gostou muito da idéia, como muitas crianças, mas o fato é de se compreender, pois talvez Güibbi como a maioria das crianças pensasse que SE A VIDA FOSSE JUSTA NÃO COMEÇARIA PELA ESCOLA.
Mas isso logo mudou, pois para a surpresa de Mellowyng, e ainda mais do garoto, Güibbi conheceu a primeira pessoa com quem pudesse confiar uma palavra amiga. Mídullas, um garoto da vila, talvez o único que confiasse sua vida a Güibbi, pois os dois se conheceram em uma confusão na escola.
Os anos se passavam, e junto com ele, a amizade ia aumentando, Mídullas conheceu a Mellowyng e tornou-se um grande espectador das histórias do velho. Todas as tardes depois da escola, e às vezes nas manhas dos fins de semana, Mídullas andava o trecho que seguia em direção a casa do amigo. O jovem sempre ouvia as histórias do tio do amigo, que agora se sentia mais próximo do amigo do sobrinho.
Mídullas adorava passar horas e horas na casa do amigo, ali mesmo na cozinha ouvindo as histórias que o tio contava, e tomando aquele chá. Era apenas uma xícara, e mesmo assim, às vezes fazendo certo esforço para terminar, por incrível que pareça, a história sempre acabava primeiro.
Tudo parecia ser tão real, tudo tão vivo na mente dos dois, que lhe davam a impressão do tempo ter parado. Eram tantas aventuras, tantos contos, embora Mellowyng contasse quase sempre a mesma história, que os dois olhavam atentos ao que o velho dizia.
─ “DARGON!... Um mundo diferente, onde tudo é possível, onde até a própria história se mistura com a realidade!”
Tanto Mídullas quanto Güibbi ficaram fascinados em conhecer esse novo mundo, que mesmo não estando nele sentiam que mesmo sendo uma história, aquilo poderia ser real. Mellowyng contava de um jeito diferente, não usava si quer uma folha, como se os acontecimentos estivessem marcados em suas lembranças por já ter acontecido a ele, e mesmo que por ventura lhe pedisse que contasse de novo, ele contava cada detalhe, como da primeira vez.
O tempo passava, e com ele, a paciência de Güibbi também. Numa simples manha, o tio lhe avisara que iria sair. Acordou, cedo tomou seu precioso chá, uma tragada do bom fumo e disse.
─ Güibbi faça tudo, mas não precisa limpar o porão
Aquelas palavras já lhe eram tão ditas, que o próprio sobrinho sabia o que o tio iria dizer. Era como se de súbito pressentisse e falasse junto com o tio.
─ Güibbi faça tudo, mas não precisa limpar o porão.
O tio fechou a porta! Um passo inicial para que aquele espírito aventureiro reaparecesse. Sem mesmo pensar duas vezes, Güibbi andou em direção ao porão, sem mesmo olhar para trás, estava tremendo, pensando se o tio não esquecera nada.
O jovem vai em direção a cozinha, pois ainda não tinha a chave. Procurou muito, até que desistiu. Sentiu que a sorte estava do seu lado.
─ Quem sabe o tio deixou a porta aberta?
Andou novamente em direção ao porão, desceu escadaria a baixo, numa esperança sem tamanho. Desceu a escada, quando terminou o trajeto , com toda a vontade rodou a maçaneta, mas a porta estava fechada. O jovem sentia que suas esperanças haviam acabado, estava triste, cabisbaixo, como se o seu destino estivesse por de trás da porta, mas ao subir a escada, Güibbi novamente se alegrou.
Lá em cima, já no topo da escada, Güibbi viu Hanffield à coruja do tio, e a mesma tinha sobre ela um cordão que nele estava à chave do porão, então novamente sentiu forças e subiu escadaria à cima.
O garoto pega o tal cordão com a chave que estava com a coruja, mas também não sabia ao certo, se aquela era mesmo a chave do porão e pensava que não poderia ser para outro fim, pois Hanffield saía quase todas as noites, coisa que não vem ao caso agora. Porém o que mais impressionou o jovem, era que a coruja piava, se rebatia toda com as asas como se quisesse dizer algo a ele.
Güibbi desceu novamente escada abaixo e quando chegou à frente do porão, sente a própria consciência falando consigo mesmo, eis que surge uma voz impetulante... Aquela que te fala.
─ Vá em frente, prossiga. Qual é meu rapaz, está com medo?(Güibbi ouvia duas vozes, porém a outra lhe dizia).
─ Isso não está certo! Seu tio confiou em você, siga o seu coração.
Mas o jovem estava decidido, pegou o molho de chaves e olhou o porão como se já pressentisse o que já o aguardava, olhou novamente o molho de chaves e o fitou. Güibbi sentia em seu coração, certo pressentimento de preocupação, aquele velho e conhecido friozinho na barriga, mas não desanimou, abriu a porta e observou.
Estava lá, o porão cheio de “badulaques” que o tio tanto o aconselhava a não entrar. Então o sobrinho decidiu vasculhar, a andar como se estivesse procurando algo. Já se passara muitos pensamentos em sua mente. “O que o tio tanto esconde aqui?” Andou aqui, ali.
Ao deslumbrar aquele velho porão encontrou cajados, capuzes, móveis antigos bussolas, e também tantas outras coisas que não conseguia enxergar devido à escuridão do lugar, mas ao olhar em direção que fazia à luz de fora refletida no vão da porta, Güibbi pode ver um pequeno objeto enrolado em um velho pedaço de pano.
Era uma Paladíra. Uma bola de cristal, esta era redonda, mas ao mesmo tempo sem forma, como se coubesse ali dentro, o universo. Enfim... Güibbi viu ali o que nunca antes sonhou encontrar.
A Paladíra era escura, mas conforme ele a olhava, ela ia clareando como um flash de luz que vinha de dentro para fora, e que ocupava todo o lugar, até que de repente, sem mesmo perceber, “O Porão já não existia.”
"... Talvez os sonhos não estejam em uma dimensão tão distante... Pois quando sonhamos temos os mesmos reflexos que sentimos quando estamos acordados!"SINCERAMENTE: R. S. CARVALHO
Bom Gostei muito!! Agora jah to Interessado no conto!!
ResponderExcluirMuito obrigado!!! É bom saber que ainda existem pessoas interessadas nesse tipo de história... # R. S
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