quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

CAPÍTULO 2


  UM LUGAR DESCONHECIDO                                 
      Güibbi já não enxergava mais nada, o flash de luz quase o deixou cego. Quando voltou em si não sabia onde estava. O lugar em que estava era um tanto diferente, como se estivesse no quintal da casa, foi então que o jovem percebeu que não estava mais no porão.
     Por trinta Dragões! Onde estou?
     Güibbi sabia da história, de como surgiram os boatos, mas não sabia como a pedra funcionava, nem mesmo como sua mãe havia morrido, pois para ele, sua mãe havia morrido pouco antes de nascer, pelo menos isso era o que o tio dizia. Na noite em que o dragão matou a mãe de Güibbi, sem pensar duas vezes Mellowyng aparatou com o mesmo ainda recém nascido, tal coisa impossível acontecer aos olhos de quem vivia naquele mundo ainda desconhecido pelo jovem, porem como em todos os acontecimentos já ditos neste novo mundo envolva Mellowyng, há de se entender como este mundo era tão real aos olhos de Güibbi agora presenciando tudo, pois quem se atrevesse a deslumbrar aquela pedra mágica, jamais voltaria. Mellowyng sabia bem disso, pois foi isso o que aconteceu a mãe de Güibbi.
     A visão voltava pouco a pouco ao jovem, o lugar era bem diferente do porão, o chão em que pisava era relvado, Güibbi percebia que quer o que fosse ser o lugar onde estava ainda era manha.
     Onde estou? Que lugar é este?
     Assim questionava ele consigo mesmo, Güibbi falava como se soubesse que não estava mais sozinho, parou, olhou para os lados e resolveu andar pelo lugar. Seguiu uma trilha que ia em direção ao leste, o lugar era lindo, diga-se de passagem. Güibbi maravilhava-se ainda mais com o lugar, o que via era impressionante, ainda mais para ele que mal saía de casa, sempre seguindo o mesmo caminho, a mesma rotina, da casa para a escola, embora a vila em que morava tivesse toda aquela magia.
     Ao lado o jovem via as arvores que cortava toda a extensão e que cobria todo o lugar, quanto mais caminhava percebia que mais arvores trilhavam o caminho, até onde seus olhos podiam avistar. Güibbi percebia que o lugar tinha algo em comum com o lugar de onde veio, até que finalmente se lembrou.
     São as arvores. (Assim dizia o jovem para si mesmo).
     As arvores mostravam-se tão altas e fortes quanto a arvores do vilarejo onde morava. Güibbi sentia que as mesmas fossem talvez ainda mais altas do que as arvores que agora se lembrava, era como se as arvores do vilarejo fizesse parte daquele novo mundo ainda tão desconhecido, mas da mesma forma mágico e diferente para ele.
    Güibbi andava em meio a arvores que agora guardava o brilho do sol com suas copas tão altas e tão grandes, até que encontrou um grande lago no meio da trilha que seguia entre as arvores. Ao olhar novamente ainda com mais clareza, Güibbi podia ver que não se tratava de um simples lago, mas que também havia uma cachoeira, uma pequena cascata, a água era clara como as nuvens que cercavam o céu, pois podia ver tudo através do lago que refletia tudo como se fosse um grande espelho. Porém agora o jovem vendo tudo a sua frente, perguntava-se como aquilo poderia se possível.
     ─ Não entendo. Como pode ser possível uma cachoeira nascer em um lago? Para onde vai toda essa água?
     O jovem admirava o lugar, como se também da mesma forma o estranhava, mas embora tivesse certo receio de estar em um lugar tão estranho e da mesma forma belo como aquele, a vontade de beber aquela água cristalina e diferente era tão grande, que assim ele a fez. Güibbi bebeu daquela água, admirou novamente o lugar e caiu num sono profundo à margem do mesmo que de tão cristalino, parecia infinito.
    O grande lago levou Güibbi às profundezas de um sono interminável que o deixou inconsciente por todo o percurso. Talvez você possa se perguntar como Güibbi possa ter percorrido um percurso tão grande, sendo que o mesmo estivesse em um lago, mas essa era somente a primeira pergunta de muitas que ao longo da história Güibbi fará a si mesmo.
     No sonho Güibbi se depara com uma mulher, a mesma tinha um semblante alegre, com um longo vestido branco com purpurina, fazendo assim com que o mesmo brilhasse tanto quanto uma estrela, mas também tinha um colar, o jovem não entendia bem, mas no sonho ela o entregava a ele. O sonho já se repetia por muitas vezes, talvez sempre, assim poderia pensar ele, pois Güibbi tinha esse mesmo sonho há muito tempo desde que nasceu morando com o tio.
     Quando acordou, sentiu a brisa tocar seus cabelos, as arvores se mexerem, como em um espetáculo que espera as cortinas serem abertas para mostrar sua magia e sua beleza, em fim já era noite.
     Está ficando frio! Preciso encontrar um lugar para me aquecer e descansar.
     Güibbi foi à procura de abrigo ainda se perguntando como fora parar ali, até que de repente ao longe avistou uma caverna, não pensou duas vezes, foi correndo de encontro com a mesma. A fome, o frio e o cansaço eram tão grandes que na verdade o jovem nem se preocupou se poderia haver algum ser vivendo ali, pois afinal quando se encontra em condições como esta você sempre acha que está sozinho, mas não foi o que aconteceu a Güibbi. Ao entrar na caverna, Güibbi foi surpreendido por duas criaturas, e sem perceber foi encurralado.
     Quem está ai? (Assim dizia ele sem saber do que se tratava).
     Güibbi não conseguia ver nada, a caverna era escura, mas com dificuldades podia ver algumas coisas. A mesma se mostrava um tanto obscura aos seus olhos, pois nunca em toda a sua vida Güibbi havia entrado em uma caverna, talvez por não existir cavernas em Capíli, assim pensava ele, ou por talvez não precisar.
      Güibbi relembrava agora com um pouco de dificuldade da primeira vez que conheceu a Mídullas, pois pensava que se na ocasião tivesse encontrado uma caverna, não hesitaria em adentrar por ela.
     Na caverna, Güibbi podia ver mesmo ainda com um pouco de dificuldade, isso dada pela escuridão que havia no lugar, mas o que via era de fato surpreendente. O jovem via que mais a frente, lá ao longe havia um lago, porém este se mostrava mais sombrio, mas isso era pouco diante do frio que o garoto sentia, embora me presuma que o jovem não se atreveria a bebê-la novamente.
     O chão era pedregoso, porém o que mais chamava a atenção do jovem era o teto da caverna, pois olhando ainda mais de perto, Güibbi podia ver que não se tratava de uma simples caverna, mas sim uma gruta, pois no teto havia rochas pontudas semelhantes a presas caninas, e dessas rochas que havia no teto da mesma, pingavam gotas d’água que desciam uma a uma deslizando por entre as rochas até caírem no lago formado na caverna.
     O vento lá fora ecoava cada vez mais forte, a chuva começava a cair vagarosamente. O vento aumentava e junto com ele o frio, Güibbi já começava a tremer. A chuva aumentava ainda mais, as arvores balançavam fazendo um som estridente ao sentir o vento tocá-las. Tudo mudava, o céu ficava ainda mais escuro do que de costume ou do que se possa pensar, ainda mais aos olhos de Güibbi que via tudo dentro de uma caverna. Raios, muita água e rajadas de trovões, Güibbi sentia certo receio de estar ali  mesmo dentro de uma caverna, cercados por tantas arvores.
     Então ele foi até a saída da caverna para ver como estava o tempo lá fora. A chuva era tanta, que o lugar ficou irreconhecível aos seus olhos, pois com o temporal, toda a beleza se fora. Güibbi se lembrava agora de como era o lugar quando chegou ali. Os pássaros cantavam, as arvores balançavam, o frescor que as mesmas exalavam era tanto, que Güibbi sentia a vida tocar em seus cabelos.  
     Não havia coisa melhor (assim pensava ele), mas logo voltou em si, pois com tudo o que lhe aconteceu, não era de se estranhar que o jovem estivesse cansado. Güibbi sentia o cansaço tomar conta de seu corpo até que finalmente resolveu dormir. O jovem deitou a beira do lago que havia no fundo da caverna, porém a chuva ainda era bem forte, embora o sono do jovem também fosse. O sono era intenso, e conforme o tempo passava mais intenso ficava, como se o tempo estivesse parado dentro da caverna.
     Com o tempo a chuva parou, porém o jovem ainda sonhando sentia muitas dores, estas muito fortes, como se estivesse levando marteladas na cabeça, até que em fim foi despertado pelas gotas d’água que caiam do teto e se misturavam nas águas do lago.
     Güibbi acordou ainda confuso com o tempo, sem saber se já era dia, ou se ainda era noite. O jovem se levantou e viu que ainda era noite embora o sonho se mostrasse tão duradouro. A caverna estava solitária, pois já não se ouvia nem o barulho da chuva, do balançar da arvores, os relâmpagos e nem mesmo os trovões, porém a única coisa que poderia se ouvir eram os pingos d’água que deslizavam por entre as rochas e que se chocava com a superfície do lago .Então foi em direção a saída da caverna a fim de saber como estava o tempo lá fora  , porém ao sair foi surpreendido por duas criaturas. Güibbi correu em direção do lago que existia lá dentro, a fim de se esconder por entre as rochas que havia em torno do mesmo, mas sem perceber foi encurralado e disse:
     Quem está ai?
     As criaturas o cercaram, o que Güibbi menos esperava. Duas criaturas, com menos de um metro e meio, cabelos longos e barbas que chegavam até os joelhos, foi isso o que viu então os mesmos disseram.
     O que faz por aqui um forasteiro? Há muito tempo não vemos humanos por estas bandas. Qual é o seu nome jovem rapaz?
     ─ Meu nome é Güibbi!
     Os anões deram um passo para trás como se já soubessem quem era o garoto, (Diga-se de passagem).
     Eu estava no porão da casa do meu tio, quando de repente avistei uma bola de cristal e a peguei, vi um clarão e quando percebi já estava aqui. Agora preciso de ajuda para voltar, mas não sei como fazer isso.
     Os dois se entreolharam, como se já soubessem o que iria acontecer, como se o passado estivesse entre o presente, até que um deles falou:
     ─ Péssima escolha meu rapaz! Meu nome é Irwin, e este é Imlin. Nós viemos do norte e estamos aqui, pois haverá um Grande Conselho.
     ─ Conselho? Por quê? (Assim questionou o jovem).
     Os anões se entreolharam novamente e Irwin respondeu:
     Meu jovem. Há muitas coisas que vocês humanos não podem compreender, aliás, nem todos podem ver o quadro todo desta história.
     ─ Estas terras que agora por onde você anda, eram divididas parte-a parte devido às raças para que não houvesse conflitos entre elas. Houve um Grande Conselho, e esse conselho dividiu as terras desta maneira. 
     ─ Ao norte, nós os anões, ao leste os Élfos. No sul os Órc’s Ogros e Troll’s, e ao Oeste os Dragões e Iguanas Selvagens. Estes são os pontos principais, mas os outros são aliados. Porém Güibbi, o que mais nos preocupa é que um misterioso mago reuniu as pontas aliadas para seu domínio. Seu nome é Óggi... É de natureza cruel e maligna. Óggi criou um exercito para conquistar todas as outras pontas e reinar sobre todas as terras e reinos que por ai ainda resistem.
     ─ E o que devemos fazer?(Perguntou o rapaz apavorado).
     Os anões observaram, mas não disseram nada, até que Irwin perguntou.
     Como disse mesmo que era o nome de seu tio?
     ─ Eu não disse, mas o nome dele é...
     De repente, antes que o jovem pudesse terminar a frase, os três são interrompidos por um barulho do lado de fora da caverna e são surpreendidos por dois élfos.
     Quem está ai? Perguntou Irwin, mas foram recebidos á flechadas.
     Não houve resposta, até que Irwin avistou uma sombra e arremessou seu machado que se prendeu exatamente na entrada da caverna. Houve um silêncio mortal, até o vento fazia eco. Porém os Élfos lá fora, viram um pequeno detalhe no machado que lhes chamou a atenção, então resolveram entrar.
     Quem está ai?(Perguntou os anões).
     Somos Élfos!(Responderam os dois). ─ Meu nome é Sharagohv e este é Jevolás, viemos do Quarto Sul para o Grande Conselho que haverá amanhã ao nascer do sol. Nós ouvimos sussurros e resolvemos vasculhar pensando ser um Órc miserável, pois nos tempos de hoje, eles andam por ai sem se importarem se estão fora de sua área, ainda mais após cujo aquele que os reuniu está ainda mais forte.
     Neste momento o semblante de Irwin aparentou-se melhor e disse:
     Nós os vimos e também pensamos que seriam órc’s, mas não podemos confiar nas sombras... Meu nome é Irwin, este é Imli e este é Güibbi, um forasteiro.
     ─ Ora, ora... O que faz aqui um forasteiro?(Retrucou Sharagohv).
     Isso não vem ao caso agora!(Disse o anão). ─ Precisamos chegar logo ao conselho.
     Conheço um atalho. (Disse Imlin, que ouvia tudo ao lado). 
          Então todos concordaram e seguiram o anão que parecia bem, seguro do que fazia...

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

CAPÍTULO 1

                      
                                           
               A CASA DO MAGO
     Mellowyng era um mago diferente, gostava de tomar chá, apreciar um bom fumo. Era uma pessoa organizada, gostava de tudo no seu devido lugar. Não era simplesmente tão fácil organizar tudo naquela humilde casa, porem o mago não a achava grande demais, apenas confortável.
     A casa mostrava-se um tanto imponente aos olhos de quem passava, mas isso pouco acontecia, já que a vila era longe da cidade. Mellowyng morava em um vilarejo distante á poucos quilômetros da mesma. Só havia um caminho a ser percorrido por quem quisesse entrar na vila, mas isso assim me crê, não seria um grande problema, já que a estrada só era usada por quem ali morava.
     As pessoas da cidade tinham certo receio de entrarem na vila, ainda mais por saberem que só havia um caminho a ser percorrido. A estrada era coberta por arvores que de tão grandes davam a impressão de que mesmo percorrendo a luz do sol, o cominho se mostrava obscuro e sem fim. Mas tudo isso tinha um motivo.
     Há muito, muito tempo atrás, não se sabe exatamente quando, talvez antes mesmo da existência daquele lugar, houve uma grande explosão. Coisas terríveis aconteceram durante aquela noite, chuvas muito fortes caíram, labaredas de fogo caiam do céu, trovões, relâmpagos, ventos a uma velocidade incomum, coisas nunca vistas antes.
     Isso fez com que mais tarde, coisas raras acontecessem naquele lugar, como a altura das arvores do vilarejo, pois as mesmas cresciam mais altas e mais fortes que as arvores da cidade. Todo o lugar mostrava-se diferente e ao mesmo tempo, mais vivo do que se possa um dia pensar. Mas como em todo o mundo, as pessoas da cidade as olhavam diferentes.
     As crianças eram aconselhadas a não entrarem na vila. Na escola, as crianças da cidade eram proibidas pelos pais de fazerem amizade com as crianças do vilarejo. Isso se propagou ainda mais quando as pessoas da cidade começaram a criar rumores sobre aquele lugar ainda tão incompreendido. É claro que isso não era totalmente verdade, pois as pessoas que moravam no vilarejo, ou para ser mais claro, na VILLA CAPÍLI, eram tão possivelmente normais quanto às pessoas da cidade.
     Tudo acontecia normalmente na vida de todos, mas não apenas para uma... Mellowyng! Embora o mago tenha uma vida aparentemente normal naquele lugar tão incompreendido, assim visto a seu próprio julgamento, era notado diferente mesmo por quem morava na vila. As pessoas que o cercavam perguntavam-se uns para os outros como um senhor de idade já avançada, pudesse ter tanta disposição e certeza como tinha o velho. Também não entendiam porque o mesmo usava aquelas vestes longas, chapéus pontudos, a barba longa e também o cajado, já que não precisava dele.
     Todos ali também se perguntavam uns aos outros, quando foi que o velho havia se mudado para o local, pois a impressão que tinham era que ele sempre estivera ali, ou então talvez fosse mais antigo que o próprio lugar.
     A casa do mago já não era igual as demais, pois se mostrava imponente aos olhos de quem a olhava. A mesma tinha uma aparência incomum, como se talvez não houvesse sido construída por mãos humanas ou coisa parecida, mas tinha uma aparência velha por fora, como se ao mesmo tempo quisesse dizer algo.
     Nas noites, a casa já não se mostrava tão tranqüila, tinha uma aparência obscura ou sem vida, o portão era de altura simples, de ferro, este era aberto e nele havia grades com pontas semelhantes à de lanças e isso percorria por todo o quintal, que era grande, com arvores a uma distancia de três metros do portão, e a cinco metros da casa.
     A casa era grande, nela havia muitas janelas com telhados semelhantes à de estruturas de castelos, com detalhes únicos, e com uma parede maior ao meio, fazendo com que a mesma parecesse uma torre. A casa era a mais antiga do vilarejo, porém o que mais chamava a atenção de quem por um acaso ousasse passar por ali, era uma estatua um pouco a frente de uma das arvores do quintal.
     A estátua tinha a semelhança de um castiçal. Um simples objeto que tem a função de iluminar, mas este era diferente, pois tinha doze braços e na ponta de cada braço havia uma pedra com a semelhança de uma bola de cristal. Porém como já citei no começo deste livro, não era simplesmente tão fácil organizar tudo naquela humilde casa, mas o velho não estava sozinho, ele tinha um sobrinho.
     Güibbi... Um pequeno rapaz de apenas treze anos que perdeu a mãe morta por um dragão quando ainda tinha poucos dias de vida. O sobrinho era um bom rapaz gostava de ajudar o tio, fazia de tudo para não o deixar zangado. O tio, este já era modesto, sempre dizia:
     Güibbi faça tudo, mas não precisa limpar o porão.
     Não é muito comum alguém dizer para não limpar o porão, mas como tudo que envolva Mellowyng, seu sobrinho, e sua casa tem algo em especial, temos que levar em consideração o motivo disso tudo. Todas as manhas, o mago se levantava para preparar aquele bom chá, uma erva doce do fumo caseiro e ia diretamente ao porão.
     O sobrinho sempre notava a rotina que o tio fazia todas as manhas, pois ao acordar preparava aquele chá, um pouco do bom fumo, pegava a sua coruja e ficavam horas no porão, ou talvez parte do dia. Ao notar que o tio fazia isso todas as manhãs, Güibbi começava a se perguntar o que havia de tão especial naquele lugar, ou então para que levar uma coruja para se passar horas num porão.
     O tio sempre dizia ao sobrinho, que ali naquele velho porão existiam coisas tão velhas quanto ele, e por isso não adiantaria de nada perder tempo com tais coisas. Mellowyng temia que a verdade viesse à tona e o garoto fizesse tal coisa, por isso nunca confiou a chave ao sobrinho, porém Güibbi sempre tocava no assunto, mas o tio sempre fugia do mesmo.
     Contudo, o sobrinho ouvia, mas sabia tanto quanto o tio que um dia aquelas palavras ditas, não seriam capazes de segurar um espírito aventureiro.
     Güibbi ouviu isso por boa parte de sua infância, mas nunca se esqueceu do que mais o deixava curioso... O Porão. Porém tudo seguia normal em sua vida, ajudava o tio, limpava a casa, mas não ainda o porão, Güibbi já tinha seis anos, mas ainda não conhecia ninguém, nem mesmo um amigo, até que porventura, um dia o tio lhe chamou para dar uma noticia importante.
     O jovem estava na sala limpando a prateleira, quando de repente quebra um vaso e o tio surpreso depois de ver do que se tratava, disse para Güibbi bater a sua porta. Era à hora de ir para a escola. No começo, Güibbi não gostou muito da idéia, como muitas crianças, mas o fato é de se compreender, pois talvez Güibbi como a maioria das crianças pensasse que SE A VIDA FOSSE JUSTA NÃO COMEÇARIA PELA ESCOLA.
     Mas isso logo mudou, pois para a surpresa de Mellowyng, e ainda mais do garoto, Güibbi conheceu a primeira pessoa com quem pudesse confiar uma palavra amiga. Mídullas, um garoto da vila, talvez o único que confiasse sua vida a Güibbi, pois os dois se conheceram em uma confusão na escola.
     Os anos se passavam, e junto com ele, a amizade ia aumentando, Mídullas conheceu a Mellowyng e tornou-se um grande espectador das histórias do velho. Todas as tardes depois da escola, e às vezes nas manhas dos fins de semana, Mídullas andava o trecho que seguia em direção a casa do amigo. O jovem sempre ouvia as histórias do tio do amigo, que agora se sentia mais próximo do amigo do sobrinho.
     Mídullas adorava passar horas e horas na casa do amigo, ali mesmo na cozinha ouvindo as histórias que o tio contava, e tomando aquele chá. Era apenas uma xícara, e mesmo assim, às vezes fazendo certo esforço para terminar, por incrível que pareça, a história sempre acabava primeiro.
     Tudo parecia ser tão real, tudo tão vivo na mente dos dois, que lhe davam a impressão do tempo ter parado. Eram tantas aventuras, tantos contos, embora Mellowyng contasse quase sempre a mesma história, que os dois olhavam atentos ao que o velho dizia.
     DARGON!... Um mundo diferente, onde tudo é possível, onde até a própria história se mistura com a realidade!
     Tanto Mídullas quanto Güibbi ficaram fascinados em conhecer esse novo mundo, que mesmo não estando nele sentiam que mesmo sendo uma história, aquilo poderia ser real. Mellowyng contava de um jeito diferente, não usava si quer uma folha, como se os acontecimentos estivessem marcados em suas lembranças por já ter acontecido a ele, e mesmo que por ventura lhe pedisse que contasse de novo, ele contava cada detalhe, como da primeira vez.
     O tempo passava, e com ele, a paciência de Güibbi também. Numa simples manha, o tio lhe avisara que iria sair. Acordou, cedo tomou seu precioso chá, uma tragada do bom fumo e disse.
     Güibbi faça tudo, mas não precisa limpar o porão
     Aquelas palavras já lhe eram tão ditas, que o próprio sobrinho sabia o que o tio iria dizer. Era como se de súbito pressentisse e falasse junto com o tio.
     Güibbi faça tudo, mas não precisa limpar o porão.
     O tio fechou a porta! Um passo inicial para que aquele espírito aventureiro reaparecesse. Sem mesmo pensar duas vezes, Güibbi andou em direção ao porão, sem mesmo olhar para trás, estava tremendo, pensando se o tio não esquecera nada.
     O jovem vai em direção a cozinha, pois ainda não tinha a chave. Procurou muito, até que desistiu. Sentiu que a sorte estava do seu lado.
     Quem sabe o tio deixou a porta aberta?
     Andou novamente em direção ao porão, desceu escadaria a baixo, numa esperança sem tamanho. Desceu a escada, quando terminou o trajeto , com toda a vontade rodou a maçaneta, mas a porta estava fechada. O jovem sentia que suas esperanças haviam acabado, estava triste, cabisbaixo, como se o seu destino estivesse por de trás da porta, mas ao subir a escada, Güibbi novamente se alegrou.
     Lá em cima, já no topo da escada, Güibbi viu Hanffield à coruja do tio, e a mesma tinha sobre ela um cordão que nele estava à chave do porão, então novamente sentiu forças e subiu escadaria à cima.
     O garoto pega o tal cordão com a chave que estava com a coruja, mas também não sabia ao certo, se aquela era mesmo a chave do porão e pensava que não poderia ser para outro fim, pois Hanffield saía quase todas as noites, coisa que não vem ao caso agora. Porém o que mais impressionou o jovem, era que a coruja piava, se rebatia toda com as asas como se quisesse dizer algo a ele.
     Güibbi desceu novamente escada abaixo e quando chegou à frente do porão, sente a própria consciência falando consigo mesmo, eis que surge uma voz impetulante... Aquela que te fala.
      Vá em frente, prossiga. Qual é meu rapaz, está com medo?(Güibbi ouvia duas vozes, porém a outra lhe dizia).
      Isso não está certo! Seu tio confiou em você, siga o seu coração.
     Mas o jovem estava decidido, pegou o molho de chaves e olhou o porão como se já pressentisse o que já o aguardava, olhou novamente o molho de chaves e o fitou. Güibbi sentia em seu coração, certo pressentimento de preocupação, aquele velho e conhecido friozinho na barriga, mas não desanimou, abriu a porta e observou.
     Estava lá, o porão cheio de “badulaques” que o tio tanto o aconselhava a não entrar. Então o sobrinho decidiu vasculhar, a andar como se estivesse procurando algo. Já se passara muitos pensamentos em sua mente. “O que o tio tanto esconde aqui?” Andou aqui, ali.
    Ao deslumbrar aquele velho porão encontrou cajados, capuzes, móveis antigos  bussolas, e também tantas outras coisas que não conseguia enxergar devido à escuridão do lugar, mas ao olhar em direção que fazia à luz de fora refletida no vão da porta, Güibbi pode ver um pequeno objeto enrolado em um velho pedaço de pano.
     Era uma Paladíra. Uma bola de cristal, esta era redonda, mas ao mesmo tempo sem forma, como se coubesse ali dentro, o universo. Enfim... Güibbi viu ali o que nunca antes sonhou encontrar.
      A Paladíra era escura, mas conforme ele a olhava, ela ia clareando como um flash de luz que vinha de dentro para fora, e que ocupava todo o lugar, até que de repente, sem mesmo perceber, “O Porão já não existia.”
"... Talvez os sonhos não estejam em uma dimensão tão distante... Pois quando sonhamos temos os mesmos reflexos que sentimos quando estamos acordados!"
                                                                               
                                                                                              SINCERAMENTE: R. S. CARVALHO